A mais antiga entidade de gestão coletiva do Equador distribuiu mais de 6,6 milhões de dólares em direitos autorais no exercício contábil de 2023, segundo reportagem do Diario Correo. Os associados equatorianos receberam 878 mil dólares desse total.
Entidade de gestão coletiva é o órgão que licencia música para bares, rádios e TVs e paga compositores e titulares de direitos. No Equador, o órgão que representa os autores é a SAYCE, a Sociedad de Autores y Compositores del Ecuador.
O restante desses 6,6 milhões foi para onde o repertório nasceu. Mais de 3,4 milhões de dólares foram repassados a sociedades irmãs no exterior. Outros 1,5 milhão ficaram com as editoras. E 783 mil dólares pararam numa conta reservada a obras não identificadas e a domínio público.
O Equador licencia música estrangeira para as casas equatorianas
A SAYCE mantém contratos de reciprocidade com cerca de 122 países e afirma que entre 98 e 98,5 por cento da música que toca no Equador está dentro do repertório que ela administra. Isso é um dado de cobertura, não de conteúdo local.
As paradas confirmam. Na semana de 30 de julho de 2026, o ranking semanal do Spotify Equador no kworb não tinha nenhum artista equatoriano no top 10. Os nomes eram espanhóis, cubanos, coreanos, porto-riquenhos, mexicanos e venezuelanos: Aitana, Ya Ice Dilan, BTS, Omar Courtz, Fuerza Regida, Danny Ocean.
Ou seja, a licença que um karaokê de Guayaquil paga é dinheiro real arrecadado no Equador que em boa parte sai do Equador. Isso não é escândalo. É exatamente para isso que existe a reciprocidade. Mas significa que o número da arrecadação doméstica é um indicador fraco do que os artistas equatorianos ganham.
As tarifas foram recalculadas em janeiro
O SENADI, Servicio Nacional de Derechos Intelectuales, aprovou um novo regime de tarifas para fonogramas pela Resolução 037-2025-DG-SENADI, publicada no Segundo Suplemento do Registro Oficial nº 207, de 20 de janeiro de 2026. O texto foi definido em conjunto com a SOPROFON, sociedade dos produtores fonográficos, e a SARIME, sociedade dos intérpretes.
O que mudou:
- As tarifas agora saem de uma fórmula, que multiplica horas, dias de funcionamento, capacidade, categoria do estabelecimento, zoneamento e fatores de uso pelo salário básico unificado.
- Foi criada uma nova Zona 5, com valores diferenciados para estabelecimentos da região amazônica.
- Há descontos para o setor de turismo.
- Uma balada, um bar ou um karaokê paga 884,49 dólares por ano pelo uso de fonogramas, segundo a Radio Pichincha.
Leia isso junto com a divisão da distribuição e o desenho fica claro. O Equador está arrecadando melhor. A quem esse dinheiro chega no fim é um problema separado e ainda sem solução.
783 mil dólares sem o nome de ninguém
A linha de obras não identificadas é a única sobre a qual um artista independente consegue agir de fato. O dinheiro fica parado ali porque chegou um relatório de uso sem um identificador de obra que dê para cruzar, ou com um crédito escrito de um jeito que a sociedade não conseguiu resolver.
ISWC quer dizer International Standard Musical Work Code, o identificador de uma composição. ISRC quer dizer International Standard Recording Code, o identificador de uma gravação específica. São códigos diferentes para direitos diferentes, e artistas equatorianos costumam registrar um e esquecer o outro.
- Registre a composição na SAYCE e o lado da gravação na SARIME e na SOPROFON. São registros separados, não um único cadastro.
- Escreva o nome dos compositores exatamente igual na distribuidora, no cadastro da entidade de gestão e nos créditos das plataformas. Divergência de grafia é de longe a maior causa de receita que não encontra dono.
- Entregue um ISRC por gravação e nunca reaproveite o mesmo código em outra versão.
- Olhe seus mercados de exportação. Para a maioria dos artistas equatorianos, o público que importa está na Espanha, nos Estados Unidos e na Colômbia, o que significa que o dinheiro está com sociedades estrangeiras, não com a SAYCE.
Novembro é um evento de arrecadação
As eleições seccionais do Equador acontecem em novembro de 2026. O diretor adjunto da SAYCE, Ramiro Rodríguez Medina, disse ao Diario Correo que o uso de música em campanha, incluindo jingles, letras adaptadas e apresentações ao vivo em comícios, exige licença de comunicação pública, e que as multas administrativas podem passar de 60 mil dólares.
Letra adaptada exige autorização expressa do titular. Para um compositor equatoriano na ativa, com um refrão reconhecível, isso é uma oportunidade de licenciamento com prazo curto e definido.
O padrão é o mesmo que encontramos no Peru, na República Dominicana e na Venezuela. O mercado de casa arrecada. O artista recebe lá fora. O que fecha essa diferença não é uma tarifa maior, e sim metadados limpos, nativos em DDEX, entregues uma vez e reconhecidos em todo lugar. DDEX quer dizer Digital Data Exchange, o padrão de mensagens que as distribuidoras usam para enviar lançamentos e receber relatórios.