Uma auditoria da sociedade congolesa de direitos autorais, feita pela inspetoria de finanças do Estado, encontrou mais de 25 milhões de dólares em direitos arrecadados sem comprovação de destino. O valor que os auditores conseguiram confirmar que chegou de fato aos titulares foi de 35.882 dólares.
IGF é a sigla de Inspection Générale des Finances, o órgão de auditoria das contas públicas da República Democrática do Congo. As conclusões, repercutidas pela Africa Intelligence e publicadas em Kinshasa pelo Mbote, descrevem saques em dinheiro e transferências que saíram das contas da SOCODA sem registro de distribuição correspondente.
A SOCODA é a Société Congolaise des Droits d’Auteur et des Droits Voisins. É uma associação de gestão coletiva: a entidade que licencia emissoras, casas de shows e serviços de streaming em nome de compositores e intérpretes, e depois reparte o que arrecada.
O número que importa é 140
Em 15 de julho, a SOCODA realizou sua quarta distribuição sob a presidência do conselho de Jossart Nyoka Longo e a direção-geral de Joe Mondonga. O Focus Actu contou perto de 140 autores e compositores pagos e registrou que artistas visuais entraram pela primeira vez em um repasse.
Cento e quarenta pessoas, num país de cerca de 100 milhões de habitantes, cujo gênero nacional é patrimônio cultural imaterial da Unesco. A rumba congolesa recebeu esse título em dezembro de 2021, junto com a República do Congo.
Innoss’B, um dos artistas mais exportados da RDC, disse ao Congo Quotidien em fevereiro que recebeu um único pagamento de 600 dólares desde que se filiou à SOCODA, em 2016. A frase dele foi direta: hoje a referência para um artista congolês é o reconhecimento lá fora, e isso é perigoso.
O dinheiro da rumba é contado em Paris
A Billboard France publicou um ranking dos dez artistas congoleses mais ouvidos em streaming na França ao longo de 2025. Ele se lê como o verdadeiro extrato de royalties da cena.
- Fally Ipupa, depois Koffi Olomidé, depois Ferre Gola no topo.
- Dena Mwana, Moise Mbiye, Faveur Mukoko e Adorons l’Éternel na sequência. Quatro nomes do gospel dentro de um mesmo top dez.
- Roga Roga, Gaz Mawete e Innoss’B fechando a lista.
Esse peso do gospel não é um padrão de Kinshasa. É um padrão de diáspora, puxado por congregações francófonas de Paris, Bruxelas e Montreal que ouvem no Spotify, no Deezer e no YouTube, em euros.
O álbum duplo XX, de Fally Ipupa, lançado em 17 de abril de 2026, saiu pela Warner Music France e pela Elektra France. Ele tem cerca de 2,5 milhões de ouvintes mensais no Spotify. O catálogo é congolês. O trilho de distribuição, o relatório e a moeda do pagamento não são.
O que um independente congolês consegue de fato controlar
A briga com a gestão coletiva vai levar anos e exige uma reforma de governança. O dinheiro do fonograma não espera por isso. Movimentos práticos que funcionam agora:
- Edição e gravação são duas linhas de receita separadas. Artistas congoleses costumam correr atrás da primeira e perder a segunda por causa de metadados de entrega mal preenchidos.
- Creditar cada participação, produtor e compositor no momento da entrega, com os splits amarrados ao lançamento em vez de acertados por telefone depois.
- Ler o relatório por território. Se França, Bélgica e Canadá são seus três maiores mercados, é lá que seu orçamento e seu calendário de lançamento precisam estar.
- Não ignorar Boomplay e Audiomack porque o valor por stream parece baixo. Eles são a camada de descoberta de Kinshasa e do público da África Central, o mesmo que depois aparece nos números de exportação.
- Manter códigos ISRC e UPC consistentes entre singles, remixes e versões de álbum, para que a arrecadação do lado francês consiga chegar até você.
Os trilhos avançam mais rápido que as instituições
O DataReportal apontou 34,7 milhões de usuários de internet na RDC no fim de 2025, taxa de penetração de 30,5 por cento. Uma plataforma nacional de pagamentos interbancários ligando bancos e provedores de mobile money estava prevista para entrar no ar em março de 2026, ao lado de um programa estatal plurianual de infraestrutura digital.
A desculpa histórica para não pagar os artistas congoleses era que não havia jeito confiável de movimentar o dinheiro. Essa desculpa está vencendo.
O que sobra é um problema de metadados, e isso um artista e uma distribuidora resolvem sem esperar auditoria nenhuma. DDEX é a sigla de Digital Data Exchange, o padrão que leva créditos, splits e dados de território para dentro de cada plataforma. Entregue direito, é a diferença entre uma linha de royalties francesa que encontra você e outra que fica sem correspondência.
A rumba congolesa ganhou sua placa da Unesco em 2021. A contabilidade não acompanhou quase nada disso.
Leitura relacionada: o repasse trimestral do BURIDA na Costa do Marfim, o sistema de royalties do Quênia nos tribunais, e onde a receita da música gravada na África Subsaariana realmente cai.