O Spotify Wrapped 2025 no Peru parecia uma setlist de cumbia. Grupo 5, Corazón Serrano, Agua Marina, La Única Tropical e Armonía 10 dominaram a lista dos mais ouvidos do país, segundo o Infobae. O reggaeton mal apareceu.
Isso é raro na América Latina. Na maior parte da região, o reggaeton e seus astros globais dominam as paradas nacionais. No Peru, um gênero com raízes de 50 anos ocupa esse lugar.
O pano de fundo é uma região em expansão. A América Latina cresceu 17,1% em 2025, seu 16º ano consecutivo de crescimento, com o streaming representando 88,1% da receita, de acordo com o IFPI Global Music Report.
As paradas são pura cumbia
São números reais de streaming, não curiosidades.
- “Motor y motivo”, do Grupo 5, ultrapassou 62 milhões de plays no Spotify.
- “Tu amor fue una mentira”, da Agua Marina, chegou a 56 milhões.
- “Si esta casa hablara”, da La Única Tropical, atingiu 55 milhões.
- Armonia 10 registrou 39 milhões em uma única faixa.
La Única Tropical, uma das orquestras mais novas, ultrapassou 850 mil ouvintes mensais no Spotify e levou “Partido en dos” a mais de 217 milhões de visualizações no YouTube. A cumbia peruana não é nostalgia. É o mainstream.
Ouvintes e dinheiro vivem em plataformas diferentes
DSP significa Provedor de Serviços Digitais, os aplicativos de streaming que pagam royalties. No Peru, três deles importam, e eles não concordam sobre o que é popular.
O Spotify gera a maior parte da receita de streaming pago no Peru. Mas é no YouTube que a maioria dos peruanos realmente ouve, porque um aplicativo gratuito, focado em vídeo e que consome poucos dados se encaixa em um mercado onde a assinatura mensal ainda é um peso para muitas famílias.
O Apple Music conta uma terceira história. Seu Top 100 peruano tende mais ao reggaeton do que à cumbia, porque seus usuários pagantes são mais jovens e urbanos. Mesmo país, três definições de sucesso.
A pirataria é a terceira plataforma silenciosa
E há o dinheiro que nunca chega. A BB Media estimou a penetração do consumo pirata no Peru em 47% em 2023, uma das mais altas da América Latina, atrás apenas de Equador e Colômbia, segundo o Media Play News.
O escritório de direitos autorais do Peru, INDECOPI, participou de rodadas de bloqueio contra 181 sites de stream-ripping e três aplicativos de extração, conforme documentado no relatório Special 301 do IIPA sobre o Peru. IFPI é a Federação Internacional da Indústria Fonográfica, o órgão global das gravadoras por trás dessas ações. O stream-ripping transforma uma reprodução no YouTube em um arquivo baixado que não paga ninguém.
O que um catálogo de cumbia precisa de uma distribuidora
A cumbia peruana é um negócio de catálogo, e é exatamente aí que os royalties se complicam.
- As orquestras revezam 15 ou mais músicos e cantores, então as divisões de direitos autorais e de execução são complexas.
- Muitos sucessos são regravações de músicas de décadas atrás, gerando reivindicações de composição subjacente que um contrato de distribuição simples ignora.
- O público está dividido entre Spotify para receita, YouTube Music para alcance e Apple Music para um gênero totalmente diferente.
Uma distribuidora feita para um single em inglês perde a maior parte disso. Entregar um lançamento para os três DSPs, com metadados limpos e divisões que pagam cada membro da orquestra, é a diferença entre uma música com 62 milhões de plays que paga corretamente e uma que fica parada em uma fila de reivindicações. DDEX significa Digital Data Exchange, o padrão de metadados que os DSPs leem na entrega.
A matemática de exportação do Peru também não se parece em nada com a de seus vizinhos. Na Colômbia, mais de 90% do dinheiro do Spotify veio do exterior. A cumbia peruana fatura em casa, o que torna a cobertura local dos DSPs e as divisões limpas o jogo inteiro.
Para uma gravadora peruana com um catálogo de cumbia, a questão não é se as músicas são ouvidas. Elas já são. É se a entrega chega ao YouTube Music e à Apple tão limpa quanto chega ao Spotify, e se as divisões de pagamento se sustentam quando uma orquestra de 20 pessoas é paga. Esse é o argumento para uma distribuidora que trata a cobertura regional e as divisões transparentes como o produto, não como uma reflexão tardia.