Uma dança sobre ratos acaba de levar um gênero das ruas do Recife para os celulares de um integrante do BTS, um ponta do Barcelona e um dos maiores criadores do YouTube. A música por trás disso quase não tem documentação.
Essa lacuna é a história. O brega funk, som da periferia do Recife, está vivendo seu maior momento global, e as pessoas que construíram os hits são a parte mais difícil de remunerar no balanço.
O que realmente viralizou
A dança Passinho do Jamal explodiu nas plataformas sociais no final de 2025 e avançou por 2026, como parte de uma onda mais ampla do bregafunk que a POW Magazine chamou de “Ano do Rato” da cena.
A coreografia foi criada por Pedro “Eo Chapa” Henrique e Romero “Jamal” Júnior, e a trend atraiu nomes globais como o jogador de futebol Lamine Yamal, o integrante do BTS j-hope e o criador iShowSpeed.
Não se trata de um gênero novo tropeçando no algoritmo. O brega funk vem se construindo desde cerca de 2011 no Recife, Pernambuco, misturando brega nordestino, funk carioca e ritmos caribenhos, como documentou a Mixmag.
O primeiro choque mainstream veio em 2018, quando MC Loma e as Gêmeas Lacração levaram “Envolvimento” ao primeiro lugar do Top 50 Brasil do Spotify e a mais de 200 milhões de visualizações no YouTube, feita por uma adolescente de um bairro periférico sem nenhuma gravadora por trás.
Por que o dinheiro é difícil de dividir
O brega funk é um gênero de produtores e colaboradores. Uma única faixa costuma passar por um beatmaker, dois ou três MCs, um grupo de dança e um criador de clipe viral que nunca assina um contrato.
A própria história da cena comprova isso. A dupla Shevchenko e Elloco se tornou central para o som só depois que o produtor GS O Rei do Beat incorporou elementos do funk paulista em suas gravações, segundo reportagem da POW Magazine.
Quando uma faixa assim viraliza globalmente, o pagamento precisa chegar a cada uma dessas mãos. A maioria das ferramentas criadas para os artistas independentes do Recife nunca foi projetada para isso.
É aqui que o valor escapa:
- Produtores que venderam um beat de forma definitiva não recebem nada quando a faixa entra nas paradas no exterior.
- MCs participantes são creditados no título, mas não nos metadados que geram pagamento.
- Criadores de trends de dança, que impulsionam os streams, ficam totalmente fora da cadeia de royalties.
- Streams de exportação chegam a países que a distribuidora local talvez nem atenda.
O número de exportação que ninguém no Recife está citando
O funk brasileiro, guarda-chuva do qual o brega funk faz parte, foi o gênero que mais cresceu no Spotify a ultrapassar US$ 100 milhões em royalties anuais, com pagamentos 36% maiores ano a ano, segundo dados do Loud and Clear do Spotify divulgados pelo Music Business Worldwide.
Cerca de metade dos streams de um artista de funk médio agora vêm de fora do Brasil. Os royalties de artistas brasileiros no Spotify cresceram 24% em 2025, de acordo com o Music Ally.
Para um MC do Recife, isso significa que os maiores cheques vêm de ouvintes em Lisboa, Luanda e Miami, não da comunidade que criou o disco. A pegada de distribuição precisa ser global desde o primeiro dia.
O que um distribuidor precisa acertar aqui
Uma DSP, ou provedora de serviços digitais, é qualquer plataforma de streaming como Spotify ou YouTube Music. DDEX, sigla para Digital Data Exchange, é o padrão de metadados que transporta créditos e divisões entre uma distribuidora e essas plataformas.
Para um gênero construído sobre muitas mãos não creditadas, três coisas decidem se o dinheiro chega:
- Entrega nativa em DDEX, para que cada produtor e MC participante seja nomeado no arquivo que gera pagamento, não apenas na arte da capa.
- Divisões transparentes por colaborador, pagas por meio de uma carteira compartilhada, em vez de um único titular de conta.
- Entrega completa de exportação, para que uma faixa que viraliza em Angola ou Portugal realmente arrecade nesses países.
A InterSpace Distribution opera divisões, e sua plataforma ToneGrid oferece aos pequenos selos que estão surgindo na cena do Recife uma solução white-label para integrar dezenas de colaboradores com KYC embutido.
O brega funk já provou que consegue alcançar o mundo inteiro em um clipe de 15 segundos. O trabalho inacabado é garantir que todo mundo que construiu o hit receba quando isso acontece.