As grifes Rareblaq e Urban Zulu estão moldando a identidade visual da música sul-africana, com artistas como Bokang Ramatlapeng usando a roupa para fazer declarações tão ousadas quanto o próprio som.
Uma saia como manifesto
Numa quarta-feira à noite em Joanesburgo, Ramatlapeng entrou na casa Jozi Gold para a segunda noite da sua primeira turnê, em comemoração ao álbum de estreia Qalo (“começo”, em sesotho), lançado em dezembro do ano passado. Ela vestia uma saia de renda volumosa e cheia de detalhes, assinada pela Oracle Dynasty, cuja cauda precisou de duas assistentes para ser carregada pela De Korte Street.
Lá dentro, no showcase Your Weekly Touchup, a expectativa era grande. Ramatlapeng subiu ao palco com um quinteto de baixo, bateria, teclados e dois sopros, diante de uma plateia que cantou cada palavra. A saia, no entanto, seguiu sendo o ponto de atenção sob as luzes.
“Muita gente ficou chocada com aquela saia grande e trabalhada”, disse Ramatlapeng duas semanas depois da apresentação. “Mas, no fundo, vivem me colocando como ‘revelação’ e ‘novata’, e eu pensei: não, chega. Ganhei um Mzantsi Jazz Award, acabou. Não estou reaparecendo, não estou saindo do nada. As pessoas me conhecem, mas foram bem intencionais em me ignorar ou em fingir que eu não existo. Então aquela saia fui eu dizendo: ei, ke kopa le nkeng seriously (por favor, me levem a sério).”
E completou: “O laranja conversa com algumas das cores do álbum. Estou me apresentando como uma sacerdotisa basotho do jazz. Chega. Ha ke sa kopa hore le mpulele litsela (não estou mais pedindo permissão). Não, eu estou aqui.”
O papel em transformação da moda no jazz sul-africano
Enquanto a inteligência artificial mexe com a arte de capa, artistas visuais e estilistas reforçam a importância de uma identidade física, feita para ser vestida. No jazz sul-africano, o terno de corte justo abriu espaço para silhuetas mais soltas, e os vestidos de paetê deram lugar a peças fluidas que funcionam como escultura e como manifesto. O repertório estético da geração atual inclui:
- Estampas seshoeshoe fortes e vibrantes
- Adornos ancestrais, como o trabalho em miçangas
- Turbantes, túnicas e quimonos
Esse ecossistema visual foi construído por marcas de roupa que entendem tanto o negócio da moda quanto a própria música.
As marcas por trás do visual
Papy Kaluw, da Urban Zulu, diz que a ligação da marca com a música veio naturalmente. “Acho que foi natural, não foi algo [planejado]. Sempre fui produto de um desenvolvimento natural”, contou. Criado em Durban, ele frequentava o BAT Centre, um polo artístico onde cruzou com músicos como Madala Kunene. “Cresci na África do Sul, mas não sou sul-africano. O sabor da unidade africana era um dos assuntos centrais, e quando os músicos passaram a acompanhar minha caminhada rumo à [estabilidade] como marca, foi ótimo. Uso a moda como ferramenta para unir o continente africano.”
Nascido na República Democrática do Congo e criado na África do Sul, o empreendedor observou que os tecidos e o estilo distintos da Urban Zulu, somados ao custo de produção mais baixo em Durban, ajudaram a marca a conquistar rápido a confiança do mercado. “Nosso tecido era diferente, nosso estilo era diferente e nosso preço era diferente. Os preços de Jozi são altos, mas vindo de Durban, onde eram mais baixos, a gente sabia produzir mais rápido e mais barato. As pessoas descobriram que a gente tinha um estilo da hora com preço acessível. Por isso ganhamos a confiança do mercado mais rápido.”
Uma estética continental
Kaluw aponta um gênero musical específico que suas roupas quase servem de trilha, resumido no álbum Urban Zulu, de Busi Mhlongo. Só a formação do disco já desenhava um corredor por toda a região:
- Brice Wassy (Camarões) – bateria
- Hilaire Penda (Camarões) – baixo
- Jack Djeyim (Camarões) – guitarra elétrica
- Sydney Thiam (Senegal) – percussão
É um modelo que Miriam Makeba formulou, que Mhlongo aperfeiçoou e que artistas como Thandiswa Mazwai e Simphiwe Dana levaram adiante desde então.