Artistas visuais africanos defendem capas feitas por humanos diante do avanço da IA

Cada vez mais músicos africanos usam inteligência artificial para gerar capas de álbum, mas um grupo de artistas visuais reage. Para eles, o design conduzido por gente é o que preserva o diálogo e a nuance cultural que fazem uma capa dizer alguma coisa.
Album cover art for Fela Kuti's 'No Agreement' alongside a contemporary AI-generated music visualizer, illustrating the contrast between traditional and AI-driven design. Album cover art for Fela Kuti's 'No Agreement' alongside a contemporary AI-generated music visualizer, illustrating the contrast between traditional and AI-driven design.

Um número crescente de músicos africanos está recorrendo à inteligência artificial (IA) generativa para produzir capas de álbum, mas um grupo de artistas visuais reage e argumenta que a colaboração humana continua essencial ao processo criativo.

O legado da capa pensada com intenção

Em 1977, o músico nigeriano Fela Anikulapo Kuti e sua banda Africa 70 lançaram “No Agreement”, um álbum de forte carga política. A capa, assinada pelo parceiro de longa data Lemi Ghariokwu, trazia um desenho de Fela sem camisa tocando saxofone, cercado por formas ovais com palavras como Freedom, Justice e Pan Afrikanism. A arte dialogava diretamente com os temas do disco, uma marca do catálogo de Fela que aparece também nas capas de “Original Sufferhead” (1981) e “Gentleman” (1973), esta última com um macaco de terno.

É essa tradição de contar histórias pela imagem que muitos designers veem ameaçada. “A capa de um álbum é um diálogo entre o artista e o criativo”, diz Niyi Okeowo, designer nigeriano que já trabalhou em projetos de Fireboy DML, Show Dem Camp e Wande Coal. “Quando é bem feita, aproxima as duas pessoas, com o designer atuando como intérprete daquilo que o músico está tentando dizer.”

A presença crescente da IA na música africana

Esse diálogo vem mudando à medida que as ferramentas de IA generativa ficam mais acessíveis. Em maio, Larry Gaaga foi criticado por usar visuais e capa gerados por IA para anunciar uma parceria com Olamide e Mavo. O diretor nigeriano TG Omori também foi acusado de usar IA na arte do álbum “AfroCulture”, de Flavour. Episódios assim ficaram mais comuns conforme os artistas buscam alternativas mais rápidas e baratas do que encomendar o trabalho.

Musai Gainyy, que já criou capas para o Show Dem Camp, observa que a arte de capa costuma ficar em segundo plano. “Em geral a atenção vai toda para o som ou para o beat, não para o pacote inteiro. Aí, quando a música fica pronta, a parte visual entra por último e quase sempre na correria. Uma capa de IA generativa sai na velocidade que a pessoa quiser, enquanto encomendar a um artista leva tempo, para aperfeiçoar e para trocar ideia.”

Os argumentos a favor do design conduzido por humanos

Gainyy acrescenta: “A IA corre o risco de eliminar esse diálogo quando é usada para substituir, e não para apoiar, o processo criativo, apenas gerando o que o artista pedir. Grandes capas nascem de conversas, de experiências compartilhadas e de contexto cultural. A IA não substitui isso.”

Para Okeowo, o processo começa ouvindo a música, identificando os temas e as emoções da letra e então montando um moodboard e um universo visual com tipografia, imagem e cor. Desmond Seyram, fotógrafo e artista ganense que já fez capas para Stonebwoy e A-Town, segue caminho parecido. “Começa sempre pela conversa, nunca pela câmera. Antes de qualquer coisa, quero entender o artista, quem ele é, o que a música está realmente dizendo, que emoção ele quer passar”, afirma.

Seyram reconhece que a IA é uma ferramenta que veio para ficar, mas ressalta o valor da interação humana. “O que pode se perder é a parte humana, principalmente a troca, a experimentação, a colaboração entre o artista e a equipe criativa. Algumas das melhores capas saem desses momentos, e não dá para digitar um prompt e conseguir isso. Para mim, a IA deve apoiar o processo, não substituir.”

O fotógrafo ganense Nana Asomani, que fotografou capas para Baaba J, pensa parecido. “A perspectiva humana na arte nunca pode ser diminuída, porque a arte vem de um lugar de emoção e de existência. Mesmo no desenvolvimento das artes feitas com IA, é a entrada humana que se faz necessária para criá-las.”

Práticas que vão além da capa

Ao mesmo tempo em que defendem a capa feita por humanos, esses artistas também estão expandindo o próprio trabalho. O artista digital nigeriano Jesse Uranta, conhecido por trabalhos de pegada psicodélica para Fireboy DML, Tay Iwar e Nonso Amadi, realizou há pouco sua primeira exposição individual depois de participar de mostras coletivas. “Eu sempre persegui o hiper-realismo da forma humana no meu trabalho e, quando cheguei lá, percebi que aquilo tinha deixado de me empolgar. Foi o que me levou a procurar formas de voltar a curtir o processo”, contou Uranta. “Meu trabalho está sempre mudando, e estou aprendendo a abraçar essa evolução, a ver de verdade aonde ela me leva. O mais importante para mim, quando crio, é o processo de tentar e ver o que é possível imaginar e trazer para a vida.”

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