O Brasil já é o oitavo maior mercado de música gravada do mundo, com forte crescimento em 2025, e um dos dois mercados latino-americanos no top 10 global, segundo o Relatório Global de Música da IFPI 2026. O streaming impulsiona esse avanço. Mas, para além das manchetes sobre funk e sertanejo, a história de exportação que mais cresce vem do Nordeste, ao som da sanfona.
Esse som é o piseiro, uma vertente enxuta do forró construída sobre acordeão, programações graves e letras românticas diretas. Seu rosto é João Gomes, cantor pernambucano que se tornou o primeiro artista de piseiro indicado ao Grammy Latino, em 2023.
Um som regional que deixou de ser regional
O piseiro nasceu na cultura dos bares e nos arquivos de WhatsApp de Pernambuco, Ceará e Bahia. Nunca foi pensado para sair do interior.
Mas saiu. Gomes contou à PopMatters que a versatilidade do gênero, com uma linha de acordeão que se dobra ao pop, ao funk ou ao brega, é o que o faz viajar. Suas faixas já ocuparam o primeiro lugar do Top 50 do Spotify Brasil em 2023 e 2025 e entraram no chart global.
Ele não faz mais shows apenas no interior. Sua agenda de 2026 inclui Paris, Londres, Bruxelas e Lisboa, indo atrás de um público da diáspora que consome música de fora do Brasil.
O mapa de casa e o mapa de exportação rodam em plataformas diferentes
Aqui está o ponto em que a maioria das distribuidoras erra. No Spotify Brasil, cerca de 75% dos streams vão para artistas nacionais, uma das paradas mais voltadas para dentro da plataforma. O piseiro vence esse jogo doméstico no Spotify e no YouTube.
O jogo da exportação é fragmentado. Um ouvinte de língua portuguesa em Lisboa, Luanda ou Newark acessa outras plataformas, e os discos que misturam sanfona e funk circulam por trilhos que uma entrega focada só no Brasil jamais alcança.
Aqui, DSP significa provedor de serviços digitais, as plataformas de streaming que pagam os direitos. O público de forró no exterior está espalhado por várias delas:
- YouTube, onde sessões ao vivo e vídeos de letra de piseiro concentram a maior parte das execuções casuais.
- Deezer, que detém uma fatia incomumente forte entre ouvintes brasileiros e lusófonos.
- TikTok, onde edições de “Brazilian phonk”, uma tendência paralela mas vizinha, continuam arrastando batidas nordestinas para feeds do mundo todo.
- Playlists de diáspora no Apple Music e no Spotify na Europa e na América do Norte.
Um artista entregue apenas às playlists das grandes gravadoras aparece nas paradas locais e desaparece nas de exportação. Essa lacuna não é um problema de audiência. É um problema de distribuição.
O que isso significa para um artista nordestino
A lição de Gomes e da onda que o acompanha, Ze Vaqueiro, Tarcísio do Acordeon, Nattan, é que o teto do piseiro é definido pela amplitude da entrega, não pelo talento.
O funk brasileiro já provou esse ponto. Foi o gênero que mais rápido ultrapassou US$ 100 milhões em pagamentos do Spotify em 2025, e cerca de metade dos streams de um artista médio já vêm de fora do país. O piseiro está na mesma curva, um ciclo de lançamento atrás.
Três coisas separam um artista que domina o Brasil de um que domina o mundo lusófono:
- Entregar para todo o conjunto de DSPs, incluindo Deezer, Anghami para a diáspora no Golfo e YouTube Content ID, não apenas Spotify e Apple.
- Registrar os splits de forma limpa antes do lançamento, porque a produção colaborativa do piseiro gera créditos bagunçados de sanfona, vocal e produção que travam os pagamentos depois.
- Tratar o TikTok como camada de descoberta que alimenta os DSPs, e não como destino final.
Onde a InterSpace se encaixa
Esse é o argumento que a InterSpace Distribution apresenta aos selos independentes do Nordeste: entrega nativa em DDEX, o padrão Digital Data Exchange que transporta metadados e splits entre distribuidora e plataforma, para os DSPs que um catálogo focado no Brasil realmente precisa, com pagamentos transparentes por colaborador.
O piseiro transformou o interior em motor de exportação. Os artistas que vão capturar o dinheiro serão aqueles cujo mapa de distribuição for tão amplo quanto o público que já têm.