Leandro Serizo, cantor, compositor e musicólogo brasileiro, lançou seu segundo álbum, ‘Sol Quimérico’, um projeto transmídia ambientado em um 2222 distópico que mescla rock progressivo com tradições brasileiras e afro-latinas.
O disco de 13 faixas navega por uma fusão de rock progressivo, metal, MPB e R&B, incorporando também ritmos afro-latinos e a herança musical do Mediterrâneo Oriental. Serizo cita uma ampla gama de influências, do pianista de jazz armênio Tigran Hamasyan e System of a Down a Chico Buarque e Dead Can Dance.
Uma Narrativa Distópica Ambientada em 2222
O conceito do álbum transporta os ouvintes para o ano 2222, onde um império alienígena liderado por Ciborgue Tyrannus governa uma sociedade tecnocrática. Nas margens desse mundo, em um lugar chamado Abutre Estelar, vivem os Abutrons: seres geneticamente modificados, metade humanos, metade abutres, que são expulsos como aberrações e adoram um sol quimérico.
Serizo descreve o projeto como o primeiro capítulo de uma obra transmídia maior. A identidade visual reforça a narrativa, empregando um fundo preto absoluto, um piso de tabuleiro de xadrez e seres mascarados e estranhos. “O tabuleiro de xadrez evoca o jogo, a estratégia, o duelo entre forças opostas, e ancora essa distopia em um espaço fora do tempo”, explicou.
Raízes Musicais e Urgência Política
O caminho de Serizo até o álbum começou com a exploração autodidata de um teclado da família aos oito anos. Mais tarde, ele se apresentou em noites de poesia e música na escola, o que ele credita como o catalisador para sua decisão de se tornar músico. Ele possui licenciatura em Música e bacharelado em Canto Popular pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), onde agora está concluindo o mestrado.
‘Sol Quimérico’ sucede seu álbum de estreia de 2021, ‘Saudoso Amarais’, que foi financiado pelo Fundo de Incentivo à Cultura de Campinas (FICC). Refletindo sobre aquele trabalho anterior, Serizo observou que a experiência de tocar aquelas músicas ao vivo solidificou sua paixão pelo rock e pela música progressiva no palco. Este novo álbum, disse ele, surge dessa mesma certeza criativa, mas em uma escala muito maior.
Comentário Político e Ambiental
A narrativa de ficção científica do álbum serve como um comentário direto sobre os eventos atuais. Serizo aponta os incêndios na Amazônia como uma inspiração fundamental, lembrando um dia em que o céu sobre Campinas, longe dos incêndios, escureceu. “Senti uma urgência”, disse ele, citando a influência da música de protesto brasileira dos anos 1960, de artistas como Milton Nascimento, Gilberto Gil e Geraldo Vandré.
Dentro da história do álbum, Ciborgue Tyrannus controla a população com uma canção robótica em loop infinito que apaga a capacidade humana de sonhar, uma metáfora para o impacto das telas digitais. Serizo, que trabalha como educador musical, disse que testemunha esse efeito de perto. “Vejo de perto o que o consumo excessivo de telas está fazendo com esta geração: não apenas a capacidade de atenção, mas a forma como cada criança constrói sua própria identidade”, afirmou.
A faixa ‘G-HD’ (um acrônimo para ‘gerado humano digital’) retrata autômatos zumbificados. Os Abutrons marginalizados, que vivem no lixo nos arredores da metrópole, representam as comunidades periféricas. “São as pessoas que constroem cultura exatamente no lugar onde o sistema disse que não haveria nada”, afirmou Serizo.
Ele descreveu a faixa mais pesada do álbum, ‘CIBORGUE TYRANNUS’, como um canal direto para sua indignação com os recentes ataques à Palestina e ao Irã. A música apresenta um poema de Miriam Silvestre que foi escrito enquanto esses ataques aconteciam. “O Brasil é um país profundamente dividido, e o governo desastroso de Bolsonaro pareceu um retorno à Idade das Trevas”, disse Serizo. “Ver a forma como Trump e Netanyahu estão cometendo crimes horríveis ao redor do mundo é sufocante. A catástrofe ambiental é política. E acredito que o rock, em sua essência, é político também.”
Por que o Ano 2222?
Serizo explicou que o cenário temporal do álbum é uma referência deliberada a um gigante da literatura brasileira. “Gosto de fazer referência ao grande escritor brasileiro Rubem Fonseca, que escreveu um livro chamado ‘O Selvagem da Ópera’ onde diz que o número 2 é o número da oposição, da dualidade, do espelho”, disse ele. “Então 2222 é o ano da dualidade absoluta, o cenário perfeito para uma história sobre forças opostas.”