Porto Rico tem cerca de 3,2 milhões de habitantes. É menor que a cidade de Berlim. No entanto, artistas porto-riquenhos ocupam um terço ou mais das paradas de streaming de todo um continente.
A ilha é um dos maiores exportadores de música do mundo, ao lado dos Estados Unidos, Coreia do Sul e Colômbia. O problema para quem lança música de lá é o mesmo de qualquer economia exportadora: o público, e os royalties, vivem em outro lugar.
A matemática das paradas é desproporcional
Uma análise de mercado compilada pela Skoove a partir de dados das paradas do Spotify mostra até onde a música porto-riquenha chega.
Artistas de Porto Rico detêm aproximadamente:
- 38% das paradas em El Salvador
- 38% na Venezuela
- 35% em Honduras
- 33% na Costa Rica
- 30% na Espanha
São fatias que qualquer cena doméstica mataria para ter em casa. Porto Rico as conquista nos países dos outros.
O reggaeton é o veículo. É por isso que uma ilha de 3,2 milhões se comporta como uma indústria nacional de porte médio no cenário global, e por que seus maiores nomes são vistos como artistas continentais, não locais.
Bad Bunny é a tese inteira em um só artista
Bad Bunny foi o artista mais ouvido globalmente no Spotify em 2025, com 19,8 bilhões de streams, segundo os dados do Spotify Wrapped. Ele é o primeiro artista a conquistar o topo global quatro vezes.
Seu álbum de 2025, DeBÍ TiRAR MáS FOTos, foi o Álbum Global do Ano na plataforma. O disco é uma carta de amor a Porto Rico. As streams vieram de todos os lugares, menos de lá.
Durante sua residência em San Juan, o Spotify registrou que as cidades que mais ouviram o artista foram Cidade do México, Santiago, Bogotá, Lima e Cidade da Guatemala. O México liderou entre os países. A música é porto-riquenha; o medidor roda no exterior.
A residência provou o modelo exportador em dinheiro real
A residência de 30 shows de Bad Bunny, intitulada “No Me Quiero Ir de Aquí”, aconteceu de julho a setembro de 2025 e, pela primeira vez, trouxe o público fisicamente para a ilha.
O órgão de turismo Discover Puerto Rico estimou quase US$ 200 milhões em impacto econômico direto, segundo a Rolling Stone. A Moody’s Analytics calculou o valor direto em cerca de US$ 250 milhões, com gastos totais próximos de US$ 400 milhões, conforme noticiou a CNN. Aproximadamente 600 mil pessoas viajaram para a ilha.
A residência também impulsionou os artistas ao redor de Bad Bunny. O Spotify mediu um salto de 41% em novos ouvintes nos EUA para Wisin, 26% para RaiNao e 18% para Chuwi durante o período, além de um aumento de 7% nas streams gerais e quase 25 mil novas playlists de fãs.
Por que isso é um problema de distribuição, não de talento
Porto Rico não carece de talento nem de alcance. O problema é que a ilha depende estruturalmente de plataformas e mercados estrangeiros para cada dólar que ganha.
A América Latina foi a região de maior crescimento em receita de música gravada no mundo novamente em 2025, com o streaming representando 87,8% da receita regional, de acordo com os dados da IFPI divulgados pelo Music Business Worldwide. IFPI é a Federação Internacional da Indústria Fonográfica, entidade que monitora a receita global de música gravada.
Para um artista independente de Porto Rico, isso significa que o dinheiro está espalhado pelo México, América Central, região andina e Espanha, em uma mistura de DSPs. DSP significa provedor de serviços digitais, as plataformas de streaming que pagam os royalties.
As lições práticas para um artista ou gravadora que opera a partir de San Juan:
- Suas paradas locais são irrelevantes perto das paradas de exportação. Planeje os lançamentos para a Cidade do México e Bogotá, não apenas para San Juan.
- Os royalties chegam de uma dúzia de territórios com taxas diferentes, então a contabilidade de splits precisa ser transparente por mercado, não agrupada.
- A descoberta passa cada vez mais por playlists da diáspora e pelo TikTok no Nordeste dos EUA e em Miami, então metadados e janelas de entrega precisam considerar fusos horários diferentes.
Uma distribuidora pensada para um único mercado doméstico interpreta tudo isso de forma errada. O mapa de ganhos do reggaeton é continental, e a contabilidade também precisa ser.
Esse é o argumento para uma entrega que alcance todos os DSPs latinos e reporte royalties por território em uma única carteira, exatamente a lacuna que a maioria das distribuidoras focadas em grandes gravadoras deixa em aberto. A música de Porto Rico já se globalizou. A parte financeira ainda está correndo atrás.